terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Onde fica?

Pouco tempo depois que me mudei para Israel, publiquei numa rede social que não fazia sentido ver anúncios de fora da Ásia, quando um amigo me questionou sobre onde ficava Israel.
Geografia pode não ser muito valorizado mundo a fora, e no Brasil não é diferente. Quando eu trabalhei para uma Cia Aérea tive que fazer uma prova de Geografia e todos ao meu lado ficavam com medo. Eu não, pois além de gostar da disciplina, cheguei a pensar em estudar numa faculdade.
Pois bem, Israel é um país da Ásia, localizado na sub região chamada de Oriente Médio, que inclui os vizinhos Arabia Saudita, Libano, Siria, Jordânia, Iraque, Kwait, Yemen, Catar, Emirados Árabes, Irã. Há quem inclua também o Egito, embora a imensa maioria do seu território seja na África. Um dos pontos que chama atenção é o fato de Israel disputar competições esportivas juntamente com países europeus, como as Eliminatórias da Copa do Mundo de Futebol, participar do concurso musical Eurovision (embora neste haja a participação até da Austrália, que fica na Oceânia).
Foto obtida aqui.
No caso do esporte, infelizmente Israel ainda é discriminado por muitos dos seus vizinhos, que se recusam a reconhecer politicamente a sua existência, e por isso mesmo são proíbidos de jogarem por lá, ou com muita dificuldade e impondo sérias restrições, atletas israelenses participam de competições na Ásia afora.
Um caso que chamou a atenção do mundo para o problema político foi com a tenista Shahar Peer, que teve o visto negado pelos Emirados Árabes Unidos, para participar de um torneio de tenis. O caso ocorreu em 2009, e mediante a toda a repercução negativa mundial e também entre suas colegas de competição, em 2010 ela conseguiu uma permissão especial para participar.
Mapa do Wikipedia
Este ano, a equipe de judô pode participar nos Emirados Arabes Unidos de uma competição na cidade de Abu Dhabi, porém sem poderem exibir a bandeira ou ícones nacionais de Israel, até que novamente se chamou a atenção quando um judoca ganhou a medalha de ouro numa categoria e não teve o hino tocado, embora ele tenha cantado à capela, enquanto executava o hino da federação de judô.
Até mesmo nos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro, um caso chamou muita atenção, quando um egípcio saiu do tatame se recusando a apertar as mão do adversário israelense, mesmo sendo o Egito a primeira nação muçulmana a reconhecer Israel como um país soberano, tendo rendido um Prêmio Nobel de Paz de 1978 ao então presidente Sadat e ao Primeiro Ministo Menachem Begin.
Fora a questão política, a cultura local é um misto entre europeia e oriental, e talvez por isto também cause confusão na cabeça de muita gente. Afinal, uma boa parte da população local veio da Europa no pós guerra, e junto se com os demais que já moravam aqui, como aqueles que vieram de outras partes do mundo, especialmente o norte da África.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Esperar surpresas, evitar sustos!

Ao imigrar, qualquer um tem que estar pronto para enfrentar desafios diários. Isto demanda preparo!
No caso de Israel, eu fui pego na surpresa logo no aeroporto Ben Gurion. Eu sei que as línguas oficiais são o Hebraico e Árabe, e sei que dentro do governo tem muitos funcionários que sabem muito bem o inglês, portanto, eu estava tranquilo com o fato de saber pouco hebraico na chegada. Conforme a Agência Judaica me disse, ao sair do avião e virar no primeiro corredor, teriam funcionários do Ministério do Interior para me receber, e lá estavam. A surpresa foi que cheguei junto com uma "comitiva" de russos e ucranianos, e depois de ser direcionado para o registro da minha entrada, fui guiado por uma funcionária que só falava em russo! E não é que ela resolveu falar em russo por ter absoluta maioria naquele momento, mas ela realmente pouco falava hebraico, e ao final, quando eu me dirigia ao taxi, ela pediu desculpas num hebraico gaguejante por não falar em inglês. Minha sorte foi ter uma ucraniana que traduziu o que foi dito, pois senão eu apenas ficaria junto a eles feito carrapato até ser direcionado para minha residência.
Este foi apenas o primeiro dos sustos dos quais passei, mas cada vez mais estou mais habituado e sei lidar e contorna los. Afinal, se trata de uma país jovem e com uma grande legião de extrangeiros que estão ainda se debatendo na língua e na cultura, gerando, eventualmente, conflitos nos relacionamentos sociais. Portanto, imigrar demanda paciência e muito preparo prévio, e por isto mesmo eu aconselho a evitar informações muito elogiosas pois elas tendem a criar um referência por vezes falsa ou sobrevalorizada, levando a decepções.
Um dos sustos que eu acompanhei foi há poucos dias, ocorrido com um brasileiro, o qual omitirei o nome para preservar sua imagem. Ele imigrou para cá e veio com ajuda financeira extra, oferecida pela Keren Leyedidut, uma ong canadense de cristãos que apoiam Israel. Não sei dos valores oferecidos, mas uma das condições e que eles não permitem ao imigrante morar num Centro de Absorção, uma residência temporária destinada a imigrantes legais, com valores subsidiados. Ainda mais ao chegar num país novo, alugar um apartamento a distância pode ser bastante dificil ou escolherá opções ruins. Este brasileiro, portanto, buscou por um apartamento e encontrou na cidade de Ramat Gan, próximo a Tel Aviv, e dividiria com uma outra pessoa, que inclusive, disse que ele teria uma oportunidade de começar a trabalhar pouco depois da sua chegada, porém a pessoa é de má indole e o colocou para morar em numa residência sem condições mínimas de higiene, sem lhe oferecer o tal emprego, e poucos dias depois ainda o expulsou de casa. No desespero e sem saber nada de hebraico (não sei a respeito de inglês ou outras línguas), tomou um taxi e foi para Jerusalém, e depois voltou de taxi para Tel Aviv, até que ele se deu conta que não tinha mais dinheiro, pois a primeira parte da ajuda de custo que o governo de Israel oferece no aeroporto ele gastou em viagens de taxi e alimentação.
Resumindo, além da má escolha em acreditar num desconhecido, ainda tomou péssimas escolhas em pegar um taxi para viajar entre cidades, para tentar ter ajuda. Uma corrida de taxi do aeroporto Ben Gurion, que fica na cidade de Lod, até o centro de Tel Aviv sai no mínimo por 120 shekels!
Depois de ter passado algumas noites com outro imigrante brasileiro em Beer Sheva, consiguiram abrir a conta bancária para ele receber a outra metade da ajuda de custo, conseguiram instala lo num apartamento compartilhado com alguém de confiança, também brasileiro, e em breve ele começará a estudar hebraico e a trabalhar.
A minha intenção inicial era falar apenas de alguns percausos que até certo ponto são naturais ao sair do local de onde você mora. Tampouco tenho intenção de julga lo. A mudança para outra cidade ou estado já podem causar isto, mas você estará num ambiente da sua lingua nativa, portanto, tirando algumas gírias, tudo será compreensível. Ao mudar de país é necessário um certo grau de tolerância para o que vai acontecer, e procurar o máximo de informações prévias ajudam a evita las ao máximo e como contorna las  de melhor maneira.
O caso deste brasileiro só mostra como há pessoas inconsequentes e que parecem não compreender que até alguém poder ajuda lo, poderá ser tarde. Eu não quero dizer que todo brasileiro seja inconsequente, apenas estou dizendo de um caso que eu conheço e coincidiu de ser com um brasileiro, que não chegou a passar uma noite de inverno na rua por pouco. Até porque, antes de vir para cá, nos últimos 5 anos em São Paulo, conheci ao menos uns 7 extrangeiros morando na rua por terem se endividado, perdido dinheiro, entre tantas histórias... Eram americanos, sul africanos, australianos, ingleses e argentinos que não sabiam o que fazer para contornar aquela situação, ou seja, quase todos vindos de um país com uma condição socio econômica melhor que a brasileira, e ainda assim, de alguma forma se perderam.
Portanto, meus caros leitores, passar por surpresas é normal e até esperando. Diria até que serve como uma espécie de rito de passagem, mas há que vir preparado, e uma das premissas é não acreditar cegamente em desconhecidos, por maior que seja o índice de honestidade do país em que se chega!

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Nhaí Israel!

O respeito as diferenças, como a homossexualidade, demonstram o avanço social de um país. Em Israel há pelo menos uns 25 anos o tema é bastante debatido, desde que uma cantora trans chamou a atenção do público com sua beleza e voz; o nome dela é Dana Internacional, que juntamente com o Dj Ofer Nissim, colocou seu nome nas paradas de sucesso em Israel e aos poucos no mundo também. O primeiro sucesso foi Saida Sultana, um vídeo que tem um lado meio trash de tão mau gravado, além dela parecer uma personagem de algum seriado como Barrados no Baile (Bervely Hills 90210) ou Melrose Place.
Dana - foto obtida com o jornal Haaretz
Dana nasceu homem com o nome de Sharon Cohen, e passou por readequação sexual no começo dos anos 90. É a versão israelense da Roberta Close, com a diferença de ser ligada aos movimentos LGBT. Naquela época isto chamava muito mais atenção do que hoje ainda chama, e sua exposição também causou admiração e repulsa.
A situação dos LGBT em Israel hoje é muito mais tranquila do que em diversos países do mundo, servindo de exemplo para tantos, ainda mais por ser um país religioso, ainda assim com tolerância e respeito. Creio que o casamento homoafetivo só não tenha entrado em pauta pois aqui não há casamento civil, apenas religioso, e os rabinos ligados a Rabanut Central, um conglomerado rabínico que tenta ser uma espécie de "papado" judaico, não tem qualquer aceitação a este respeito, ao contrário dos rabinos de correntes reformistas, conversadoras e até mesmo ortodoxas modernas, que representam entre 60 e 70% dos judeus do mundo. Mas infelizmente apenas a Rabanut Central é ouvida pelo Knesset (Parlamento).
Especialmente desde o começo dos anos 2000, a melhora da aceitação e respeito as pessoas LGBT evoluiu de forma constante e impressionante. Deste período em diante, diversos filmes também ajudaram na aceitação das pessoas, o exército de Israel passou a aceitar pessoas assumidas, virando, inclusive, motivo de orgulho em mostrar seu lado humano e respeitoso com todos os seus membros, enquanto os EUA, por exemplo, tinham a política do "Não pergunte, não fale".
Uriel Yekutiel, uma das caras da Arissa.
Tel Aviv-Yafo é a cidade símbolo da cultura LGBT em Israel e no mundo, sendo exemplo de respeito e carinho que a população demonstra com todos, colhendo também os frutos deste bom comportamento através do turismo durante a semana prévia a Parada do Orgulho LGBT, a maior da Ásia, que fica literalmente lotada de pessoas, e os hotéis com sua capacidade máxima preenchida, tanto que eu mesmo não consegui ir na edição de 2017. Para a edição de 2018 já está no ar um site com pacotes turísticos. Não há muitas casas noturnas exclusivas, pois quando são voltadas a este público são totalmente abertas para todos, sendo portanto, menos segmentadas e mais inclusivas que diversos lugares no mundo. É de Tel Aviv que um pequeno grupo passou a chamar a atenção também no Brasil com seus vídeos de músicas típicas, promovendo suas festas, todo em hebraico, que recuperaram parte da cultura musical local. Com seus personagens um tanto quanto caricatos, a Arissa já se apresentou em algumas edições da Virada Cultural em São Paulo.
Entretanto, ainda há muito a se melhorar. O primeiro ponto é que a aceitação é maior na região de Tel Aviv, enquanto em Jerusalém não ocorre o mesmo, tendo havido até mesmo um esfaqueamento na Parada de lá, no ano de 2015, por um judeu ultra-ortodoxo.
Em Beer Sheva, cidade mais importante do Sul de Israel, teve autorização de promover sua 1ª Parada do orgulho LGBT apenas em 2017, tendo esta autorização negada antes.
E amará ao seu próximo como a si próprio!
Vendo também por outro lado, dos aplicativos para este público, pude notar que ainda há muitos pudores fora da região de Tel Aviv, onde as pessoas quase nunca mostram o rosto, não colocaram os seus nomes, e quando há foto disponível, é de alguma parte do corpo, como pernas e peitoral. Na verdade, embora a aceitação e respeito público seja alto, há uma questão religiosa e cultural que reprime parte desta população, mantendo uma vida de fachada e tendo seus relacionamentos as escondidas, ou seja, mantendo se no armário! No Brasil isto também ocorre na comunidade judaica, havendo diversos grupos fechados ou secretos de judeus gays em redes sociais, pois muitos se dizem abertos ao tema, mas especialmente pais e familiares não o são de fato. Embora as comunidades judaicas liberais do Brasil, as mais representativas, sejam plenamente abertas a causa, tendo realizado cerimônias de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Segue uma declaração do rabino Michel Schlesinger a respeito da visão judaica sobre este tipo de relacionamento, frente a visão evangélica (ou parte dela):
Este comportamento as escondidas é algo próximo ao vivido fora dos grandes centros no Brasil, porém aqui é muito difícil casos de violência nas ruas como o de uma mãe e sua filha, ou um pai e seu filho, tendo estes sido confundidos com um casal homoafetivo e agredidos no Brasil. Jamais vi ou escutei falar de um caso como do meu colega que foi atacado na região da Avenida Paulista, a mais inclusiva da cidade, ou tantos outros pela cidade. E justamente São Paulo, que tanto gosta de dizer que tem a maior Parada do Orgulho LGBT do mundo... Isto para não dizer da quantidade de transexuais que são assassinados no Brasil. Israel, embora ainda tenha muito o que melhorar no quesito respeito a homoafetividade, está muitos anos a frente do Brasil, sendo um local tranquilo para se viver e conviver!
Pra encerrar, deixo o video de quando a Dana ganhou o concurso da Eurovision em 1998, que ocorreu em Birmingham, com a música Diva, o auge da sua carreira e a última vitória de Israel no musical. Notem que ela é inspiração no visual de Conchita Wurst, vencedor do concurso de 2014, tirando o fato de Conchita ser um homem gay e barbudo que se veste de mulher, como Uriel Yekutiel já fazia há anos e virou a cara da Arissa.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Quem não deve, não teme, certo? Errado!

Em Israel, ter uma dívida é coisa séria.
Antes de vir para cá, eu já sabia que em Israel, a partir do momento que uma divida é reclamada, a pessoa, seja cidadão ou não, fica retira no país até a liquidação da dívida.
Inicialmente mostra uma garantia e segurança ao comércio como um todo, porém, há algum tempo, há centenas de cidadãos, incluindo aqueles que não moram mais no país, tem se surpreendido com débitos relacionados a compras ou serviços não contratados, especialmente telefonia.
Um dos problemas é que em Israel não há leis como o Código de Defesa do Consumidor do Brasil, que garante a qualquer cidadão, o direito a notificação prévia antes de ter seu nome incluso numa lista de devedores. Aqui não existe isto.
Segundo a reportagem do Times of Israel, uma dinamarquesa que imigrou para Israel, mas voltou para a Dinamarca em 1993, ficou sabendo apenas ao tentar renovar seu passaporte em Copenhage que ela não poderia faze lo, pois havia o protesto de uma divida não paga de 1999 junto a uma cia telefônica, sendo que de 1993 em diante, ela não retornou a Israel. E caso ela pisasse em solo israelense, ficaria retida até a quitação da dívida. O problema é tão grande, que segundo a reportagem, cerca de 709 mil pessoas estão na mesma situação, e acabam sabendo do débito apenas no momento de saído do país.
De alguma forma, segundo a reportagem, as Cias Telefônicas daqui tiveram acesso ao número da Teudat Zehut (Identidade local) e lançam dívidas inexistentes numa tentativa de lucrar de uma forma completamente desonesta.
Isto não quer dizer que todos os cidadãos sejam inocentes, pois há evidentemente aqueles que se perdem nas finanças, ou que agem de má fé. Conheci o caso de dois imigrantes que retornaram ao país de origem e que sairam sem pagar o último mês de aluguel, antes de serem cobrados; caso retornem ao país, mesmo que a passeio, mesmo que por um dia, ficarão retidos até pagarem a dívida.
De todo modo, espero que os casos errados sejam descobertos e os responsáveis penalizados, e que se crie um sistema de informação para que o cidadão seja informado previamente do ocorrido e que possa tomar as devidas providências. No momento, sozinhos, os cidadãos estão em situação dificil, pois em alguns casos, um advogado é necessário, mesmo num caso de valor pequeno, mas os honorários são muito mais caros. Outra forma de ajuda tem sido a atuação das mídias, pois o caso da dinamarquesa foi retirado da pauta e tida como quitada! Mas quantas vezes e até quando os jornais darão espaço para estes abusos?

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Carros mais vendidos

Israel não possui industria automotiva, ainda assim tem uma concorrência forte e muitas opções neste mercado, mesmo tendo uma população de 8,5 milhões. Porém proximidade da Europa, que possui diversos fabricantes e as trocas comerciais entre europeus e o sudeste asiático, deixa esta terra com acesso a muitas opções. Lembrando que Israel é uma das rotas do comércio entre europeu e os asiáticos. Ainda assim os valores de veículos novos são muito caros, mas como escrevi aqui, há que se pensar mais no poder de compra, e menos no preço. Os imigrantes novos tem o benefício do desconto da taxa de importação, caso optem por comprar um modelo 0 km, valido apenas uma vez.
Saiu um relatório recentemente no portal Cartube, sobre dados de Janeiro a Setembro de 2017. É interessante notar que as marcas mais vendidas são as coreanas Hyundai e Kia, seguidas pela Toyota e pela tcheca Škoda.
Um dado preocupante é a forte queda nas vendas, que se comparadas como mesmo período do ano anterior, chega a 20%, que de acordo com o portal, não começou agora. Porém marcas de luxo como Audi, Mercedes e até BMW tiveram um aumento nas vendas.
A seguir o ranking das 20 marcas mais vendidas em 2017:

A lista contém dados de 49 marcas e 50 modelos, mas afim de facilitar a leitura, demonstro aqui apenas 20 de cada. E a seguir, o ranking dos 20 veículos mais vendidos em 2017:
Num primeiro momento, pode se pensar na pequena quantidade de carros vendidos ao ano, porém é sempre bom lembrar que a população inteira de Israel é menor que da cidade de São Paulo.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

O tal Milagre Econômico.

Há anos vejo comentários de fundo religioso para explicar o sucesso socio econômico pelo qual Israel passa, como o termo Milagre ou Terra Prometida... Eu, enquanto religioso moderado, me arrepio quando escuto ou leio isso. Acredito muito mais em sermos responsáveis pelos nossos milagres, ou seja, o milagre ser resultado de nosso esforço, por vezes invejável. Claro que por vezes o esforço próprio não é o bastante, pois senão, o Brasil teria milhões de milhonários.
Israel, embora seja considerado um sucesso, já passou por muitas dificuldades, então resolvi listar algumas:
  • Guerras - Coloquei em primeiro por ter sido o primeiro desafio enfrentado por Israel, que no dia seguinte a declaração de independência (ocorrida em 14 de maio de 1948) foi atacado pelos países da Liga Árabe (Egito, Jordânia, Siria, Líbano e Arábia Saudita), sendo atacado por Sadan Hussein durante a Guerra do Golfo Pérsico. Até os últimos confrontos com o grupo terrorista Hamas na Faixa de Gaza;
  • Clima - Não é segredo que esta terra é árida, quente, seca, pobre em minérios e até sua fundação também com fraca infra estrutura;
  • Economia - Israel já passou por uma crise econômica, tendo o ápice nos anos 80, onde uma forte desvalorização do Shekel, uma inflação que beirou os 400% ao ano, até o momento em que o Shekel foi substituído pelo Shekel Novo em 1985, onde se cortaram 3 zeros, numa ação que era muito comum no Brasil até o plano Real;
Os anos 50 e 60 foram relativamente muito bons para Israel, pois além da vinda de muitos imigrantes expulsos dos países do Norte da África, países contrários a existência do Estado Judaico, também recebeu compensações financeiras que eram recebidas para reparação dos males causados durante o Holocausto, tratadas num acordo entre Israel e a Alemanha, desesperada para limpar sua imagem de país de criminosos da humanidade. A Suíça, que na língua inglesa é sinônimo de neutralidade, também assinou contratos de compensações financeiras após reconhecer que muitos de seus bancos se aproveitaram das riquezas judaicas durante a 2ª Guerra para enriquecer.
Taxa de inflação entre 1978 e 1986. Gráfico obtido com o Banco Mundial.
Porém a Guerra do Yom Kipur, em 1973, causou estragos não apenas com as perdas humanas que aquele ataque coordenado pelos vizinhos Líbano, Síria, Jordânia e Egito, causou também sérios problemas na economia local, que seguiu com crescimento muito abaixo dos alcançados anteriormente, saindo dos 14% ao ano em 1972 chegando ao 0% em 1977.
A moeda corrente na época era a Lira Israelense sofreu seguidas desvalorizações no mercado internacional, tendo sido substituída pelo Shekel pouco depois, e mesmo o Acordo de Paz entre Israel e Egito não causou melhoras econômicas. O pior momento econômico foi o ano de 1984, com a inflação chegando a incríveis 370% ao ano.
Uma das apostas do governo foi no incentivo para criação de novas e pequenas empresas, no que hoje é chamado de Start Up's, onde o governo investiria mais forte em educação e daria incentivos fiscais para investidores internacionais, receberia apenas o valor investido de volta em caso de sucesso, mas não arcaria com possíveis prejuízos. Esta alternativa foi importante pois ocorreu juntamente com a Operação Moisés e futuramente com a queda da União Soviética, milhões de novos cidadãos chegaram ao país.
Taxa de Inflação anual de Israel, de 1987-2016.
Em 1985 o governo de Shimon Perez deu início ao Plano de Estabilização Econômica, contanto com ajuda de diversos analistas dos EUA, onde havia misto de soluções liberais com táticas heterodoxas, como controle de preços, junto com outras iniciativas, como desvalorização cambial, corte dos 3 zeros da moeda nacional e instituição do Shekel Novo (moeda corrente até os dias atuais), redução drástica do déficit público e congelamento de todos os agregados econômicos indexados em Shekel Novo, forte elevação da taxa de juros nacional, o que sempre gera um risco de forte recessão.
Apesar dos riscos, passados mais de 30 anos após a criação do plano, juntamente com os acordos de paz com a Jordânia e a ANP nos anos 90 e a consequente queda na quantidade de conflitos armados contra Israel, provocaram recuperação econômica inicialmente lenta porém progressiva e consistente, gerando hoje uma preocupação pela taxa de inflação negativa, pois isto tende a levar a economia a recessão.
Portanto, o tal Milagre Econônomico nada mais é que uma resposta a consequência de uma guerra altamente desumana, pois o dia do Yom Kipur é onde todos os judeus permanecem em jejum total por cerca de 27h seguidas. E também uma resposta ao fim das compensações financeiras, que sustentaram o país por diversos anos e pagaram pela infra estrutura básica ainda hoje existente.
Um vídeo (em Inglês, é possível traduzir as legendas) busca mostrar um pouco dos motivos do crescimento econômico israelense baseado nas Start Up's, e nos números impressionantes, mesmo se comparados com países com economias mais fortes, como Inglaterra, França e Alemanha.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Milagre não. TRABALHO!

É muito comum dizerem que Israel é uma terra abençoada, por ter vencido todas as guerras nas quais foi colocada, e mesmo após 2 mil de perseguições, o judaísmo ainda vive, porém o que vejo é algo maior que milagre: é trabalho.
Milagre significa esperar uma ação divina e e usufruir dela, mas o judaísmo é uma religião que acredita em atividade da humanidade. Pedimos a D'us, mas também fazemos por merecer, afinal, são boas atitudes que transformam o mundo!
Minha (ainda pouca) experiência de trabalho em Israel mostra que o nível de esforço é elevado, ainda hoje, enquanto este país "surfa" numa boa onda da economia: crescimento do PIB na faixa de 4% constantes há quase 10 anos, taxa de inflação negativa nos últimos 3 anos, elevação do salário mínimo, elevação do salário mínimo dos professores, porém nada veio de graça.
Especialmente após a fundação do país, diversos trabalhos estruturais foram realizados, como captação, tratamento e distribuição d'água, geração de energia elétrica, por exemplo.
O ritmo de trabalho aqui é na faixa de 180 a 220 horas ao mês, o que gera um ritmo de trabalho de 9 a 10 horas diárias, 5 dias por semana, com 30 min de refeição. Claro que é possível já conseguir um emprego em sua área de atuação, mas o quanto de hebraico ela demandará e se sabe? Qual o seu nível de conhecimento em inglês? A demanda aqui é elevadíssima, não cabendo enrolações.
O imigrante novo normalmente vai trabalhar em ramos comuns de trabalho, como limpeza, operacionais, auxiliares de cozinha ou comércio. É preciso encarar como uma fase de adaptação, afinal, a barreira da língua impede melhores posições de trabalho. E de qualquer forma, aqui trabalho é trabalho, e precisa ser feito. Não existe, como no Brasil, discriminação social pelo cargo da pessoa. Ouvir algo como "Você sabe com quem está falando?", infelizmente ainda comum no Brasil, ou deboches sobre o trabalho que você realiza, aqui não existem.
Geralmente aceitar a primeira proposta de trabalho, ainda mais fora da sua formação, não é a melhor opção. É necessário avaliar se valerá a pena o esforço, se você será capaz de aprender algo de útil para sua vida e se lhe oferecem vantagens.
Eu trabalhei em hoteis no Mar Morto, e lá, geralmente, o restaurante dos funcionários era muito bom, incluindo até refrigerante, cerveja e sorvete a vontade para se servir. Também trabalhei como vendedor numa loja, e lá a vantagem é o desconto de 30% em compras que eu fizesse lá.
A minha recomendação, para eventuais futuros imigrantes, é prestar a atenção ao que dizem a respeito dos locais de trabalho, pois há sim abusos trabalhistas e promessas não cumpridas. Tanto que para se garantir, o melhor é ter tudo anotado em documentos, pois em certos casos, entrar na justiça impedirá novos abusos, além de uma possível boa indenização, porém é sempre melhor evitar a dor de cabeça.
Outra recomendação é vir com a mente aberta e compreender que um trabalho fora da sua área pode ser uma ótima forma de aprimorar sua capacidade de se comunicar e também compreender que praticamente todos neste país também trabalharam pesado.
E por último é aprender a se impor, sem ser ríspido, pois se você for bonzinho, como brasileiros costumam ser, vão colocar mais trabalho nas suas costas e isto não é bacana, mas acontece. Portanto, também se aprende a colocar limites para que todos trabalhem igual, e um não fique de forma folgada e o imigrante novo segurando todo o peso.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Aborto

O tema é polêmico e vou primeiramente abordar sobre a lei em Israel.
O Aborto aqui é legalizado!
Isto não implica que seja simples de ser feito na rede pública, pois cada caso é analisado por uma junta médica que proferirá sua decisão. Um dos pontos observados é o período da gestação. Em casos de procedimento particular, não há qualquer barreira legal, exceto o valor, como qualquer outro procedimento médico.
O aborto é, na minha visão, uma agressão ao corpo da mulher, mas as origens da gravidez, por vezes são agressões física e psicológica tão ou maiores quanto. O fato de eu ser religioso e contra o aborto não me impedem de ser a favor da legalização do procedimento. Creio que valores religiosos não podem se sobrepor as vontades e necessidades reais das pessoas.
Há alguns pontos que gostaria de colocar para explicar minha posição. Como eu não sou mulher, não posso gerar um filho em meu ventre e isto me coloca numa posição de passividade frente ao que se passa na cabeça das mulheres durante esta decisão. Mesmo que uma parceira minha estivesse grávida e optasse pelo aborto, eu a deixaria ciente da minha posição, sem faze lo de forma a causar constrangimento, e sim apenas de expor minha contrariedade, pois da minha parte, apoio emocional e financeiros estariam garantidos, o que infelizmente não é uma realidade geral. Há séculos, senão milênios, a política é machista, sexista e voltada a determinar o que cada uma pode ou não fazer consigo mesma. Pensa se mais na manutenção de uma vida ainda em formação do que naquela já formada, e nas consequências que isto implicaria para ambos após o nascimento.
Num momento de acirramento de ideologias político-religiosas, de posições políticas apaixonadas e emburrecidas, eu opto pela liberdade que cada um tem em decidir seu destino. E aproveitando este mesmo acirramento, é extremamente estarrecedor que muitos dos que são veementemente contrários ao aborto serem também favoráveis a pena de morte. Se um feto é uma vida plena e não pode ser "assassinado", como dizem, porque uma vida adulta pode? Isto é ser pró nascimento, e não pró vida!
Outro ponto é que o fato de não ser legalizado não implica em não ser praticado. As mulheres pobres os fazem com métodos que até colocam suas vidas em risco, enquanto aquelas mais abastadas viajam para onde o aborto é legalizado, pagam por isto e continuam com suas vidas sem riscos.

Eu não me refuto a tratar de temas polêmicos envolvendo Israel e em parte o judaismo (tenho tentado manter valores religiosos de lado), e tenho sido alvo de críticas por conta das minhas opiniões expressadas tanto aqui no blog quanto pelo Facebook. E isto, para mim, servem como combustível para continuar, pois este blog não tem a preteção de ser mais do mesmo, de mostrar apenas belezas e exaltar Israel, ou de ser como aqueles que tão cegamente o crítica, sem nem mesmo ter chegado perto daqui; minha pretenção é fazer a devida comparação com o Brasil, ilustrar seus acertos e erros, pois entendo que algo que esteja bom pode ser melhorado.
Quero deixar claro que ser religioso não me faz ser contra liberdade individuais!

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Sistema de saúde

Em quase todo o mundo, judeus são conhecidos pelo seu forte envolvimento com a Medicina. Faz parte da cultura religiosa de valorização da vida. Nos brindes dizemos "Le Haim" (À Vida), normalmente as doações de dinheiro são feitas em multiplos de 18, pois representam o valor numérico da palavra viver (Hai). Numa das últimas falas de Moisés, D'us ordena que ele avise a todo o povo que terão duas opções: a morte e a vida, e que deveremos escolher a vida (portanto não é uma escolha, é um mandamento). Só pra citar alguns exemplos.
São Paulo tem um hospital de referência internacional, o Albert Einstein, assim como Nova Iorque tem o Monte Sinai Beit Israel, como outros exemplos pelo mundo afora.
No Estado de Israel não é diferente. Na verdade, diversos avanços mundiais da Medicina vem daqui. Porém minha intenção não é exaltar a magnitude das pesquisas médicas daqui, tampouco falar sobre questões religiosas, e sim falar do sistema de saúde.
Assim como no Brasil, a assistência médica é pública, mas as coincidências param por aí. Por conta da Constituição 1988, a Jurisprudência tende a dar amplo e total favorecimento ao cidadão, a todo e qualquer custo, sem cobrar nada diretamente. Aqui, o entendimento é um pouco diferente. Algo público não é necessariamente gratuíto, e com a saúde não é diferente. O entendimento legal é que tem direito ao sistema público quem contribui para mante lo. Por exemplo, cidadãos que retornam a Israel (תוֹשָׁב חוֹזֵר, Toshav Chozer), tem um período de carência em atendimento não emergencial após voltarem a contribuir com o sistema de saúde. Isso foi instituído pois haviam os que retornavam a Israel, faziam algum tratamento, e depois iam embora, deixando a conta para o governo pagar.
Planos existentes com a % da população atendida
Todo trabalhador assalariado tem descontado do seu salário uma porcentagem que é destinada ao sistema previdenciario (até aí parecido com o Brasil), que inclui o serviço de saúde pública. Ele é oferecido por empresas terceirizadas, quase como numa Parceria Público Privada, e como no Brasil, nem tudo que é privado é bem feito e tem seu problemas, e quem paga a conta é o erário público. Aposentados devem retirar uma parte do seu benefício para o pagamento do sistema de saúde.
Os planos básicos são iguais entre sí e não resultam em maior pagamento por parte da população. O governo define uma cesta de procedimentos e medicamentos inclusos e aqueles que poderão ter algum pagamento adicional a ser feito no momento do procedimento. Já os planos especiais tem suas diferenças e cabe ao cidadão optar por ele ou não e pagar diretamente ao plano de saúde o valor adicional que lhe foi informado, conforme faixa etária, em valores atraentes.
O cidadão tem o direito a trocar gratuitamente de plano a cada 6 meses e os planos são obrigados a aceitar, mesmo que seja um retorno. Para aqueles que optaram por planos superiores o prazo é o mesmo para voltar ao plano básico. A "dificuldade" é que caberá ao cidadão transferir o prontuário médico de um plano para outro. E se mudar apenas de residência, deve pedir a transferência do prontuário de um posto de saúde para aquele mais próximo ou conviente.
Pacientes só são atendidos diretamente em hospitais em casos de acidentes graves e claro risco de morte, senão ele será cobrado particularmente e os preços são bastante caros. Embora recentemente eu soube de casos de atendimento durante o Shabat, quando os posto de saúde estão fechados, e antes de ser cobrado, o paciente se dirigiu ao posto de saúde, explicou ao médico o que houve, e este emitiu um encaminhamento retroativo e não precisou pagar, mas são poucos os que sabem disso.
Outra possibilidade, durante o Shabat, é se dirigir aos postos de saúde privados, como da rede Terem. Durante o Shabat ou qualquer outra festividade, onde os postos de saúde estão fechados, eles atenderão normalmente cobrando valores muito baixos pela consulta e procedimentos, e em casos de encaminhamento para hospitais, cobrarão apenas pelo atendimento, pois os planos cobrem os custos hospitalares, e ao ser transferido, o mesmo será feito mediante autorização dos planos. Se for em horário convencional, os preços são mais elevados, mas como há problemas no serviço dos planos de saúde, cada vez mais estão sendo requisitados, e fazem atendimentos rápidos, acertivos e a população tem ficado satisfeita, exceto por pagar a mais.
Outro detalhe aqui é que quando se trata da primeira consulta, ela é sempre feita com o chamado médico da família, equivalente ao clínico geral. Ele fará uma avaliação prévia e em caso de necessidade encaminhará o paciente para tratamento com o especialista. E enquanto durar este tratamento, o paciente irá diretamente com este médico. Se precisar de outro tratamento, votlará ao médico da família, mesmo que esteja com outro tratamento sendo feito.
O tempo de espera para uma consulta geralmente é curto, quanto a exames poderá ser encurtado se o atendimento for feito em outro posto de saúde.
Hospital Soroka. Foto: Dr Avichai Teicher
O imigrante novo, ao chegar em Israel e ser direcionado para seu registro como cidadão, já fará a escolha do plano de saúde. De modo geral, a Clalit, por ser a mais velha de todas, é a mais recomendada por ter forte atuação em praticamente em todo o território, com destaque para Beer Sheva e seu Hospital Universitário Soroka. O Macabi tem uma atuação maior na região central do país, como Tel Aviv e cercanias e Jerusalém também. O Meuchedet é mais voltado para o público religioso, portanto, homens e mulheres tem atendimentos com profissionais do mesmo sexo, respeitando regras religiosas. O Leumit é o mais novo, único fundado após a fundação de Israel, com pequena participação no mercado, com um pouco mais de destaque na região norte.

Os problemas no sistema público

Provavelmente por má gestão, os planos todos os anos precisam receber bilhões de shekels do governo para se manterem operantes. O mesmo vem ocorrendo com grandes hospitais.
Um problema recorrente é o mau atendimento por parte de funcionários receptivos, que em muitas vezes não demonstram muita vontade em cooperar com pacientes visivelmente enfermos. Como imigrante novo, ainda tenho dificuldade em agendar um exame via internet ou por telefone, e as recepcionistas podem fazer isto, mas já houve vezes em que se recusaram sem um motivo aparente.
O número de médicos é mais baixo que o necessário, gerando lacunas no atendimento. Eu mesmo precisei esperar meu médico voltar de férias pois meu caso não era emergencial.
Outro problema com médicos é que muitos reclamam que seus salários estão abaixo do que desejariam, e muitos tem apostado em clínicas médicas particulares, consiliando com o trabalho para os planos em Posto de Saúde ou Hospitais, mas em horários reduzidos, quando o fazem.
Enfim, é um sistema em geral bom, mas precisa de ajustes para se manter forte.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Os judeus da Etiópia

Quase o mundo todo tem uma percepção de que judeus são brancos, muitas vezes loiros ou ruivos, vindos da Europa, especialmente Alemanha, Polônia e Rússia, mas a realidade é que há muitos que são morenos, mulatos, indianos e negros, como eu escrevi aqui. Judeus do Brasil vieram de diversos países além da Europa, como Turquia, Líbano, Síria, Iraque, Irã e Marrocos, só para citar alguns países fora do conhecimento padrão. No caso específico dos negros, a maioria absoluta vem da Etíopia, embora exista outras pequenas comunidades na África, como Uganda.
O caso dos judeus etíopes deve ser motivo de estudo por historiadores, antropólogos e sociólogos, para dizer o mínimo, pois a vinda deste grupo para Israel é uma prova da necessidade da existência de um país como este.
Vou me concentrar na história recente, na Operação Moisés (מִבְצָע מֹשֶׁה), que foi uma operação de resgate de judeus etíopes que viviam em situação de extrema miséria em condições tribais. Com o apoio do governo do Sudão, país a princípio inimigo (assim como muitos de maioria muçulmana), uma frota de aviões pousou naquele país para que militares invadissem secretamente a Etiópia e resgatassem milhares de judeus etíopes para serem levados a Israel.
Iniciada em 21 de novembro de 1984, a Operação envolveria o transporte  de 8 mil judeus etíopes de campos de campos de refugiados no Sudão diretamente para Israel, foi encerrada em janeiro de 1985. Milhares haviam fugido a pé da Etiópia para o Sudão. Segundo estimativas, cerca de 4000 pessoas morreram durante a travessia, que em geral era feita a noite e tiveram que lidar com a situação da fome.
A Operação Moisés foi encerrada no dia 5 de janeiro de 1985, depois que Shimon Peres (1º Ministro), durante uma conferência de imprensa, confirmou o teor da Operação, pois já haviam suspeitas da imprensa a este respeito. Foi, na minha opinião, um erro estratégico, pois o Sudão encerrou a cooperação logo após o discurso de Peres, uma vez que o governo sudanês sofreu muita pressão negativa vinda de países da Liga Árabe.
Yityish "Titi" Aynaw, Miss Israel de 2013
Israel e Etiópia não tiveram relações diplomáticas entre 1973 e 1992, também por influência de países da Liga Árabe, embora houvesse colaboração mútua anterior ao rompimento das relações diplomáticas. Até os dias atuais muitos etíopes ainda chegam a Israel como cidadãos plenos, gozando até de maior ajuda que outros grupos de imigrantes, como americanos, brasileiros ou russos. Tudo por conta da situação de forte pobreza daquele país, fazendo com que os que imigram não tragam consigo recursos suficientes para viverem minimamente bem, dependendo quase que inteiramente do governo.

Problemas de Adaptação

Embora seja extremamente louvável os esforços do governo israelense da época, e também o do Sudão pela permissão dada, até hoje há um problema interno muito difícil de lidar, que é a inserção e absorção destes imigrantes. Como eu escrevi acima, a maioria vivia em condições tribais, não conhecendo questões mínimas de uma vida numa sociedade ocidental, como morar numa casa, acender um fósforo, como segurar uma caneta, ler e escrever.
Com isto, até os dias atuais, os mais velhos, aqueles que vieram na Operação Moisés, tem dificuldade de lidar com a vida em Israel, não conseguindo trabalho ou quando conseguem, em cargos sempre menos elevados, tendo portanto, salários mais baixos. Tanto que alguns acabaram saindo de Israel e indo morar em outros países, incluíndo os EUA.
Protesto em Tel Aviv, em 2015. Foto: Tomer Neuberg/Flash90
No Centro de Absorção em que vivi, em Beer Sheva, há vários deles que vivem alí permanentemente, embora seja um local de passagem, e normalmente, é para viver de 6 meses a 1 ano, no máximo. Eles são os que mais se inscrevem em programas do governo para residências para cidadãos de baixa renda.
Os filhos desta geração e aqueles que vieram posteriormente tem uma condição de vida mais dentro da normalidade (dentro dos padrões ocidentais de normalidade de uma vida em sociedade), assumindo diversos cargos, inclusive dentro do governo, servindo ao exército, estudando nas Faculdades e Universidades do país, portanto, mais preparados para evoluirem na vida sócio econômica. É o caso da primeira negra eleita Miss IsraelTiti Aynaw (foto acima, com a badeira)nascida na Etiópia. Lembro bem de uma etíope em Tel Aviv, linda com uma roupa que misturava um pouco da cultura daquele país, e com um belo coque. Pena que eu não consegui fotografa la. Deslumbrante!
Por conta desta dificuldade ainda enfrentada, muitos acusam ao governo de racismo. Eu, que sou extremamente crítico às políticas belicistas de Benjamin Netaniahu, devo reconhecer que da parte do governo isto não existe. O que existe é de uma minoria da população, especialmente de outros imigrantes, como russos, um comportamento racista.
Da parte dos empresários, como eles podem contratar pessoas que tem dificuldades básicas, como acordar cedo de acordo com um horário? Pois na Etiópia eles não usavam relógios, portanto começam o seu dia quando acordam, seja o horário que for. Se bem que de acordo com esta reportagem, há parte dos empresário que fazem escolhas de funcionários pela cor da pele. Particularmente eu ainda não presenciei nenhum caso, mas tenho conhecimento de dois específicos:

  • Uma passageira, num onibus em Beer Sheva, gravou em vídeo os insultos racistas que ela proferia a uma etíope, dizendo que ela deveria tomar banho e limpar o chão por onde passava. A imbecilidade foi tão sem tamanho que ela mesma publicou no Facebook.
  • O outro caso eu não conheci os detalhes, mas ocorreu numa publicação num grupo de ajuda mútua de judeus brasileiros, de onde está nascendo uma ONG voltada para brasileiros, onde a administradora, Gladis Berezowsky, muito atuante, apagou a publicação, expulsou a pessoa do grupo e ainda ressaltou que não há tolerância para este comportamento.

Portanto, não é por não ter presenciado que eu seja inocente em não reconhecer que isto exista por aqui. A questão é que aqui é bem menor e quando ocorre é mais descarada do que no Brasil, que tem inclusive um vereador negro e racista, e uma boa parte da população brasileira não admita que o racismo existe. A grande questão é que, apesar das dificuldades que muitos enfrentam no seu cotidiano aqui em Israel, do qual fiz questão de relatar, é fácil ver os descendentes de etiopes sendo tratados como devem, em pé de igualdade e obtendo relativo sucesso, nada além do que qualquer pessoa, independente de origem ou cor de pele mereça.

OBS: Eu ia deixar esta publicação para o celebrar o Dia da Consciência Negra no Brasil, dia 20 de novembro, mas dada a gravidade da notícia de que o jornalista William Waack proferiu insultos racistas antes de entrar ao vivo na TV e que foi afastado da apresentação do Jornal da Globo (maior rede de TV da América Latina), achei por bem adiantar um pouco desta história interessante e tocante.

2 anos longe de muitos, mais perto de mim.

Já pararam para pensar que a vida de uma pessoa é como um livro, escrito em tempo real? Felizmente, ou não, jamais teremos acesso a totali...