segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Eleição no Brasil - desde Israel

O Brasil vive uma forte tensão por causa da Eleição Presidencial, junto com dos governadores, senadores, deputados federal e estadual.
A indignação no Brasil é tanta que as pessoas se contaminaram com a ideia de que se vive a pior crise econômica no Brasil ou de que nunca houve tanta corrupção no país. Parece que se esqueceram do que houve no Brasil após a redemocratização, em 1985, quando décadas de ditadora cobraram o preço da falta de transparência com os gastos públicos, o governo federal se viu obrigado a não pagar a dívida externa, gerando falta de recursos, preços sendo reajustados duas ou três vezes ao dia. Lembro que em casa a "solução" foi comprar um freezer para estocar comida, substituição de alimentos comuns por outros menos procurados para pagar menos, eu não comprar carne para todos os dias... A falência da maior Cia Aérea do Brasil, a Varig, em 2006, tem conexão com isto, pois ela não podia reajustar as tarifas, mas os custos de manutenção sim.
Um dos lemas do grupo de Judeus do qual faço parte!
Não sou defensor de partidos ou políticos, mas notei que desde a série de protestos de junho de 2013, na eleição de 2014, um clima estranho de muita polarização só tem crescido. E como eu descrevi aqui, eu me senti empurrado para um viés de esquerda.
Desde a eleição passada resolvi pouco me manifestar sobre posições políticas, pois em geral são superficiais, e qualquer contra argumentação é feita de maneira agressiva e desrespeitosa.
Mas resolvi tratar de alguns pontos que me chamam atenção, num ponto de vista de um morador de Israel:

  • Os eleitores que votaram aqui não são todos judeus, embora a grande maioria. A transferência do local de votação também pode ser solicitada por turistas, corpo diplomático, estudantes. E dos moradores brasileiros aqui, há também cristãos. E dos turistas, qualquer vertente religiosa, incluindo muçulmana e ateus podem ter votado aqui. Israel é um país aberto para as diferenças.

"Alemanha acima de tudo" e "Proibido judeus", algumas das frases acima. Obtido neste site.
  • Chama atenção as contradições dos brasileiros que vieram morar aqui e seu aberto suporte a um dos candidatos com um discurso extremamente parecido com o de Adolf Hitler (que dizia Alemanha acima de tudo). Tal candidato, inclusive, é alvo de duras críticas de diversas fontes, como os jornalísticos El País, Economist, incluindo a extrema direita francesa, com Marine Le Penn fazendo observações negativas. Até um ex lider do Ku Klux Kan disse ver semelhanças deles com Bolsonaro. Mas todos são chamados de comunistas por seus leais defensores.
  • Israel é um país formado por minorias, para minorias, com respeito e ampla aceitação aos imigrantes. No início das primeiras aliot (termo usado para definir a vinda de judeus), antes do movimento sionista de Herzl, já haviam judeus aqui e eram a minoria. Só por isto, o tal candidato já é contra os ideias que moldam este país, o qual faz aberta defesa, e o voto de brasileiros nele é extremamente contraditório. Após a queda do 2º Templo de Jerusalém e a diáspora judaica, judeus se tornaram minorias por onde se estabeleceram, incluindo Polônia, onde formaram uma parcela considerável da população.
  • Os judeus que resolvem imigrar a Israel recebem uma série de ajudas governamentais e por vezes não governamentais, que foram crescendo e se diversificando ao longo dos anos. Pelos 6 primeiros meses, paga se uma quantia para ajuda das despesas iniciais (em torno de 60% do salário minimo daqui) com adicional por filho, é oferecido um curso de hebraico gratuito, seguro desemprego a partir do 7º mês aqui sem ter encontrado emprego, a maioria pode morar em centros de absorção com valores subsidiados, auxílio aluguel, descontos para compra de carro novo, desconto para compra do primeiro imóvel, mestrado gratuito até os 27 anos de idade, desconto médio de 70% para cursos registrados... Enfim, são vários benefícios para a aclimatação, sem qualquer pre requisito exceto ser judeu, filho ou neto de judeu. É, portanto, o que no Brasil se chama de bolsa.
  • O voto num candidato estritamente xenófobo e contra imigrantes é contraditório vindo de imigrantes brasileiros, muitos deles filhos de imigrantes europeus. Ou seja, ele, imigrante, filho ou neto de imigrantes, pode imigrar em busca de um lugar que deseja para morar, outros que assim o fazem não podem? 
Fico extremamente incomodado com aqueles que aproveitam destes benefícios, típicos de um país com forte influência comunista (embora nunca tenha sido de fato), reclamarem que programas brasileiros como Bolsa Família são esmola, não ensinam o povo a viver por contra própria, entre outras observações. O que é oferecido aqui é chamado de direito, e o que é oferecido no Brasil é chamado de assistencialismo barato, mesmo que o valor não chegue a US$ 100 ao mês. Esquecem, ou fazem que não sabem que políticos como David Ben Gurion, Golda Meir e Ytzhak Rabin eram comunistas!
Quando citei do país ser formado por minorias, para minorias, em todos os lugares se nota isso. Se eu quiser atravessar a rua, os carros param, ao contrário do Brasil onde aceleram e de repente alguma alma benevolente me deixa atravessar. Os homossexuais vivem em plena tranquilidade, tendo famílias com filhos facilmente vistas. A sociedade pode ser vista como paternalista, mas jamais como machista como a sociedade brasileira é - até nos banheiros do Muro das Lamentações há trocadores de fraldas nos sanitários masculinos. A polícia nem sempre anda armada, pois não precisa, e o índice de criminalidade é baixo - ninguém acredita que possuir uma arma possa ser melhor do que uma polícia bem preparada que atua na prevenção. Aqui facilmente se consegue ajuda para quase tudo, de encontrar um emprego, a carregar as compras na rua. Aqui não sou chamado de vagabundo por ter uma bicicleta - rabinos andam de bicicleta. Até mesmo imigrantes ilegais tiveram um grande suporte da população  quando Bibi Netaniahu decidiu expulsa los para a África, a ponto dele ter recuado da decisão - isso pois, é sabido que voltariam a um estado de semi miséria e talvez até fossem condenados a morte por terem vindo para cá.
A cara da direita brasileira 
Um dos absurdos que escutei foi na praia. Estava caminhando pela manhã e um brasileiro parado, com sua bicicleta elétrica falando dos "absurdos de Fernando Haddad", que quis forçar sua mãe a pedalar pela cidade. Primeiramente, embora caibam reclamações da qualidade das ciclovias que ele construiu em São Paulo, ou mesmo da gestão dele como prefeito, ninguém forçou ninguém a nada. Enfim, pedalar uma bicicleta em Tel Aviv, onde existe até congestionamento delas e falta de lugar para estaciona las, tudo bem. Mas em São Paulo, uma cidade maior que Israel inteira, com problemas históricos de transporte, não pode! Ao menos não encontrei gente tresloucada como aquela mulher que entrou no Congresso Nacional e pensou que a homenagem à imigração japonesa fosse um sinal de que estavam transformando o Brasil num país comunista.O mais contraditório para mim é o sentimento de revanche instaurado. Embora o PT realmente não seja o melhor exemplo de boas relações diplomáticas com Israel, especialmente com a ex presidente Dilma Rousseff (chamada de Anã Diplomática), o Brasil sempre teve relações contraditórias a Israel. Desde a contundente defesa de Oswaldo Aranha no reconhecimento da Partilha da Palestina na ONU, com ex presidentes como Getúlio Vargas declarando que sionismo é terrorismo. Mas há que se dizer que o ex presidente Lula esteve sim em Israel, ao contrário do que se noticia, e fez homenagens ao mortos no Holocausto, com fotos oficiais do Museu do Holocausto, Yad Vashem.
No momento, o que eu espero é a escolha do melhor presidente para o Brasil, e não por dizer que defenderá Israel. Israel não estará em risco por falta de apoio brasileiro e não precisa de defesa vinda da América do Sul, embora seja sempre bem vida. Da mesma forma que se condena empréstimos e investimentos brasileiros em Cuba, Venezuela e Equador, justamente por faltar condições mínimas para muitos brasileiros, dedicar atenção a outro país, seja qual for, é contraditório. E o tal apoio é baseado de que em Israel vivêssemos como nos templos Bíblicos, a espera do Messias, e não é isso, a população é muito menos religiosa do que se pensa. Se notassem a quantidade de bandeiras do arco iris teriam um infarto? Ou como as mulheres aqui andam com shorts extremamente curtos (e ninguém liga)...
Que o candidato que diz querer voltar ao Brasil de 40 anos atrás vá para o lugar que merece: os livros de história do que não fazer na política, especialmente após 30 anos como deputado que pouco produziu e somente enriqueceu e colocou os filhos para seguirem carreira política. As coincidências com o fascismo e o nazismo são muito grandes, e comparações de discursos e atitudes geram quase uma rejeição sob uma suposta banalização do Holocausto. Mas justamente por respeito aos que sofreram ou foram duramente assassinados sob comando de Hitler, que relembrar sempre é de extrema importância para evitar a repetição de fatos.
Para encerrar, minha intenção não é dizer em quem votar, ou em quem eu votarei (embora esteja evidente), pois eu não faço mais isto, quanto menos fazer campanha para um ou outro, mas este é o exato momento em que provavelmente em que se faz, ou se escolhe, quem deve ser escolhido, e não o que se desejava no princípio. Pela memória da Professora e Psicóloga Iara Iavelberg z"l, brutalmente assassinada em 1971 no auge da ditadura militar no Brasil.
Assassinada por agentes da Ditadura por ser contrária ao regime. Longe do atual conceito de cidadã de bem!

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Vantagens e desvantagens de ser bilíngue no exterior

Imigrar a um país que tem uma língua oficial diferente das línguas comercialmente famosas, como inglês, francês, espanhol e alemão, traz dificuldades iniciais aos que assim desejam faze lo sem conhecimento prévio. São poucas referências de literatura, música e filmes, que são instrumentos para conhecer melhor a cultura e se habituar com a sonoridade da língua. E daí que vem a sensação em muitos brasileiros que sabem inglês ou espanhol, por exemplo, mas que na prática se prova falsa. Um engano que fica muito claro quando saem do país.
Vir para Israel, onde as línguas oficiais são hebraico e árabe, se aplica a isto. Eu, mesmo tendo um conhecimento mínimo da língua ao chegar, sofri bastante no começo, com a questão da minha saúde, ou no dia dia, quando comprava algo pensando ser outra coisa. Até mesmo no aeroporto, esperando o meu registro no Ministério do Interior; queria usar o banheiro para escovar os dentes, mas a funcionária da copa só falava russo (uma terceira língua, não oficial).
O fato de eu saber inglês relativamente bem me ajudou bastante, inclusive no momento eu trabalho falando apenas em inglês e hebraico, pois não são tantos os que sabem um inglês de alto nível aqui.
Nas estações de trem, por exemplo, com exceção ao trem com direção ao aeroporto, todos os sinais sonoros são em hebraico, e visuais em hebraico e árabe. Quando eu contratei os serviços de telefonia aqui, por exemplo, a atendente não falava inglês, e acabei assinando um contrato as cegas, pois não tinha outra opção senão hebraico.
Fiquei pensando nisso ao lembrar da história de uma brasileira que imigrou para cá há uns 10 anos, e que chegou aqui sem qualquer outra língua senão a língua portuguesa. Ela, mais que todos, foi obrigada a se esforçar ainda mais para aprender hebraico, para poder seguir com sua vida. Mas só posso imaginar as dificuldades e confusões em que se meteu. Apesar do espanhol também ser pouco popular aqui, a forte imigração dos judeus argentinos no início dos anos 2000, por conta da moratória que Buenos Aires deu em seus credores, fez a língua ser um pouco mais ouvida, mas ainda assim, lembro das dificuldades dos meus amigos venezuelanos e peruanos ao se candidatar para um emprego.
Portanto, embora eu nunca recomende a ninguém imigrar sem conhecer razoavelmente a língua daquele país, saber outras línguas pode ser um incentivo para o esforço e para avançar nos estudos, pois se tentará diminuir os percalços e sofrimentos pela falta de comunicação.
Aqueles que chegam com inglês ou até mesmo os russos, sofrem por se apoiar de mais nestas línguas, o que os faz ter mais dificuldade de aprendizado. Os russos, e me refiro aos mais velhos, obviamente se sentem confortáveis falando sua língua materna, e como há muitos aqui, eles conseguem sempre ter alguém por perto para ajuda los, mas quando não há, ficam imersos numa arapuca que eles foram direcionados e não sabem como sair.
Assim como um amigo que pouco aprendeu hebraico, e trabalhou comigo, e passou a atender aos clientes e colegas apenas em inglês.
Aqueles que vem sem saber outra língua além da materna, portanto, precisam se esforçar ainda mais, terão que ter paciência consigo e com os outros, pois erros de entendimento serão normais.
Não me considero nenhum exemplo de comportamento, mas fiz o possível para falar apenas em hebraico, seguindo o conselho da minha primeira professora de hebraico, Sonia Bachar, que disse para eu prestar a atenção em cada conversa  que eu pudesse, por mais boba que fosse, para absorver a pronúncia e significados. Claro que nisto eu também estou aos poucos absorvendo os erros comuns e vícios de linguagem.
Portanto, aponto aqui alguns pontos principais de vantagem em saber uma segunda língua:

  • Fatores cognitivos: você passa a compreender melhor o mundo em que vive em seus problemas e beleza;
  • Facilita o aprendizado de outras línguas, pois há momentos em que um termo, verbo ou palavra em geral não possui uma tradução direta ou explicação clara, mas para a outra língua possui;
  • Busca por um emprego, pois ao menos aqui, assim como no Brasil, não é fácil encontrar quem fale inglês, espanhol, francês e etc em alto nível;
  • Relacionar se com pessoas de diversas origens. Hoje uma das minhas supervisoras é filipina, já tive uma romena, além de um russo.
Há, claro, desvantagens também:
  • Apoiar se demais noutras línguas que não sejam a língua local;
  • Demorar mais do que o esperado em aprender a língua local;
  • Sentir se especial por saber uma outra língua - apesar de ser muito bom, volte a realidade, pois o mundo precisa de pessoas que façam o bem, e não que queiram se mostrar o quanto sabem (ou pensam que sabem)*;
  • Muitos, para te "ajudar", vão usar essa sua habilidade e conversar só nesta língua, bloqueando seu avanço;
  • Vir em casal, embora um dê apoio moral ao outro, vão falar na língua materna;
  • Se sentir inseguro em avançar, em falar errado em ser mau compreendido, e passar a querer falar na língua que conhece.
Os primeiros momentos num novo país devem ser para se dedicar a aclimatação e isto inclui a língua. Considere que os dois primeiros anos talvez ainda seja pouco para isto.
Em suma, eu não tenho uma resposta única se há melhor ou pior vir para um país como Israel sem saber inglês ou outra língua, pois no fundo, depende de cada um, de cada caso.

* Possuo uma amiga que se orgulha em dizer que sabe diversas línguas, no momento se enveredou pela política, e infelizmente se ligou a partidos fascistas, e faz mau uso do diferencial que ela possui. Uma tragédia...

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Carta a um Amigo

Recentmente um amigo meu saiu do Brasil com destino a Israel, e mandei a ele uma longa mensagem de voz, que a resumi aqui para todos:

"Cada um sabe o que sente no momento em que sai do país. Cada um tem uma experiência e encarar a despedida e a ansiedade pela partida ao seu modo, pela vida nova que se desenha. Eu ainda lembro bem o que senti quando sai do país. Esta experiência é sempre muito enriquecedora, independetemente como andar o seu processo.
Sai do país deixando para trás praticamente 12 anos de um namoro, e você tem uma perspectiva diferente. Passei por "poucas e boas"... Eu vim sozinho, você também vem sozinho, mas sob outros aspectos. Você tem alguém lhe esperando, e tenho certeza de que ele o ajudará muito neste processo todo.
Lembre se que muita gente passará ao seu lado, mas você precisa manter seu foco. Independetemente de como foi comigo ou outros amigos que você conheça e que fizeram o mesmo caminho, você precisa se perguntar: Eu posso ir mais longe? Esta pergunta é chave. Se você sente que sim, siga em frente. O sofrimento virá, em menor ou maior grau. É fato!
Sentirá falta de seus pais, irmãos, amigos, família, porém onde você se concentrará mais? No que "perdeu" ou no que estará ganhando fora? Quando a segunda opção for a melhor, é sinal para continuar! Pense sempre que há muito a ganhar, e é isto que espero para você.
Que você consiga superar de maneira tranquila todas as dificuldades que enfrentará, pois a diferença cultural é muito grande. Você ainda teve uma rápida passagem por aqui, e isto lhe dá uma vantagem que eu não tive, pois minha primeira vinda foi de logo para me mudar. Não se trata de uma competição, mas perceba que isto lhe será benéfico.
Apenas tente conter eventuais momentos de extrema ansiedade, onde você esteja a ponto de cometer alguma bobagem, seja ela qual for - busque desviar o foco desta atenção negativa. Eu, por exemplo, ano passado comecei a sentir os mesmo sintomas de ansiedade que senti antes de buscar tratamento psicológico. E algo de bom que tirei disto foi saber em como lidar com a minha inteligência emocional, e daí que comecei a praticar caminhadas noturnas, de 5km, 8km, 12km por noite, tendo chegado a incríveis 35km num Shabat em Tel Aviv, entre repouso e passeios.
Fica como uma dica, uma possibilidade. Haverá momentos em que se pensa que não há saída, de que estamos sozinhos no mundo, mesmo com muita gente em volta. E NÃO ESTÁ! Você precisa estar bem consigo mesmo, sentir que você está no controle. Diga para si mesmo: Eu Posso. Perceba em si uma força surgir de onde você não espera. Isto para mim, foi mágico, e faz com que eu ganhe uma dimensão que as vezes eu não consigo traduzir aos demais.
É claro que eu tenho minhas inseguranças, e como... É tudo muito novo! Eu começo a olhar para trás, perceber tudo que superei, e sinto orgulho de mim mesmo. Sinto um orgulho da porra (com o perdão da expressão)!
Que seja hoje, quando me despedi em definitivo de Beer Sheva, dos incomodos que senti com meu último companheiro de quarto... Ele não fez nada de propósito, por despeito... Passou, suportei e segui adiante. É necessário estar consigo mesmo e se sentir no controle.
Este foi um fato, dentre tantos, e quando eles vierem procure uma resposta. O outro não é um problema, eu não sou um problema... saiba que existe momentos que você terá que aguentar, terá que enfrentar, pois você é novo, chegou a pouco tempo e não sabe como reagir, está fora da sua zona de conforto. Mas o bacana é que isto lhe instiga a se mexer, de buscar algo diferente.
O comodismo é algo natural do ser humano, e não falo como crítica, e sim como observação. A questão é não se acomodar com o que há de ruim; é buscar o melhor. Isto leva tempo; se dê tempo. Faça com calma!
Eu realmente espero que tudo ocorra bem.
Aprenda o seguinte: Se tudo só ficasse bem, ficaria sem graça. Quando algo vai mal, aprendemos a nos mexer, a evoluir, e melhorar, a nos moldar. A recompensa é indescritível. Eu me sinto um homem melhor!
Mesmo sentindo toda a saudade que eu sinto, também percebo todos os ganhos que tenho obtido. Aprendo a cada dia a me fortalecer sem perder a resiliência - a capacidade de desviar daquilo que não posso alterar, mas que tampouco quero que me machuque. Ser maleável! Não dar murro em ponta de faca.

יאללה. קדימה!"

terça-feira, 15 de maio de 2018

Faixa de Gaza

Eu não tinha intenção de abordar questões de conflito militar, mas é quase impossível não aborda las. Israel, antes de ser culpada ou vítima, está no centro nervoso dos noticiários mundiais de conflitos. O peso com que as notícias e o viés com que são noticiados também são de certo modo desproporcionais ao tamanho do conflito e dos envolvidos.
Poderia abordar questões históricas, mas o momento me pede alguns pensamentos a respeito do último conflito, em 2018, onde frequentemente noticiário mostra a morte de diversos civís naquele território.
Há que se observar sempre o ponto de vista de onde vem as notícias e fotografias. Em qualquer local de conflito, se as notícias vierem apenas do lado mais fraco, a tendência é de se mostrar este lado apenas como vítima e o outro apenas como agressor. Historicamente é a forma como o conflito com Israel tem sido retratado, daí as distorções constantes. As agressões vem de ambos os lados, de diversas formas, portanto ambos ferem e saem feridos.
Este último conflito é por conta dos 70 anos da fundação de Israel, onde o grupo terrorista Hamas tem incitado a população de Gaza a tentar invadir o território israelense, numa tentativa de recuperar o que um dia pode ter sido de seus antepassados recentes. E com a recente transferência da Embaixada dos EUA para Jerusalém (inaugurada justamente em 14/05/2018), teria sido o motivo adicional para entrar em conflito.
O primeiro ponto que me chama a atenção é que se é sabido que Israel tem um exercito forte e extremamente preparado, me parece que uma tentativa de invasão se assemelha ao dito popular "dar muro em ponta de faca". Se bem que houveram alguns poucos que conseguiram ultrapassar a fronteira e foram presos em território israelense.
Foto: Reuters - obtida nesta reportagem.
É notório que se utiliza a população inocente e descontente com suas vidas como massa de manobra para se criar um cenário televisivo perfeito para demonstrações de excessos de força, que na minha humilde opinião existe. Ou seja, já se sabe para onde as câmeras estão apontadas e que o jornalismo ali presente está sedento por sangue, afinal, isto vende jornal! Se observarmos fotografias vindas de lá, tecnicamente são muito bem feitas, com iluminação cinematográfica, trazendo muita emoção, o que por outro lado também é discutível até que ponto não é embelezamento da tragédia humana (me refiro a qualquer fotografia de guerra).
Sei o peso da minha escrita, e não a fiz por conhecimento empírico, e sim por ser formado em Comunicação Social, com passagem por um Bacharelado de Jornalismo (inconcluso). Há diversos estudos de mestrado e doutoramento a respeito de diversas forma de abordagem no jornalismo.
Ou seja, há duas peças nessa mesa de xadrez que são fundamentais: o circo midiático e insuflar a população a se atirar contra um dos maiores exercitos do mundo.
Outro ponto que me chama a atenção há anos é que Israel, em especial os governos de direita como de Benjamin Netaniahu, não se dão conta que a cada uso excessivo da força como o fazem em Gaza, ao manterem apenas uma estratégica belicista, contruíbe para a percepção negativa mundial sobre o conflito. Não me refiro que tirar tropas e chamar para bater um papo - este absolutamente não é o momento para isto. Mas insistir numa busca da paz apenas através de ações militares prova, há mais de 70 anos aqui, e séculos mundo a fora, que não funciona. É claro que do lado palestino também há muitos erros, como a valorização da morte para criar a imagem de mártires, incluindo crianças, ao contrário da lei judaica de valorização da vida sob todos os apectos.
Gilberto Gil diz em sua música que "a bomba sobre o Japão fez nascer o Japão da paz". Não é sempre assim, meu caro. Nem tudo se resolve com porrada, tiro e bomba.
Entristece me muito saber que estou em plena segurança, levando uma vida normal como deve ser, enquanto uma população é afligida por diversas formas, como as péssimas escolhas políticas locais e os ataques vindos de fora.
Finalizo esta publicação com o alento de ter parcipado de um protesto pacífico contra o forma como este conflito é conduzido, e compartilho um dos poucos vídeos narrados de maneira neutra, sem tender para nenhum dos lados, embora com algumas imprecisões. Que tenhamos paz. Quem tenham paz!

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Israel e Irã: Pensamentos sobre o último conflito

Infelizmente, desde a queda do regime dos Xás no Irã e a consequente Revolução Islâmica naquele país, as relações com Israel só vem de mau a pior ao longo dos anos. Históricamente, judeus tem presença naquele país há mais de 2500 anos, conforme relatado inclusive na Bíblia (livro de Ester) com a queda do 1º Templo de Jerusalém (o Templo de Salomão). O tratamento a judeus daquele país até os dias atuais é tido como bom, gozando de privilégios como a permissão do consumo de vinho para as festividades, sendo que bebidas alcóolicas são proibidas naquele país (embora facilmente encontrado a venda até com a polícia iraniana, que eventualmente entrega em casa, conforme relato de turistas). O porém fica para a proibição de manterem contato com Israel. 
Como é distante, Irã usa Síria e Líbano com escudos para atacar Israel
É tido que o início do último conflito na região norte de Israel tenha se iniciado após uma apresentação do governo de Benjamin Netaniahu, com dados ultra secretos obtidos pela Mossad, a respeito de uso militar da energia atômica por parte do Irã. Em suma, segundo "Bibi" Netaniahu, o Irã mentiu.
O atual presidente dos EUA, Donald Trump, desde sua campanha eleitoral, vinha afirmando que o acordo para uso civíl e pacífico de energia nuclear pelo Irã, e a retirada das sanções econômicas ao país dos Aiatolás, foi um erro do governo de Barak Obama e por isto mesmo retirou seu país deste acordo, embora os demais países continuem nele. 
Israelenses lançaram esta campanha aos Iranianos

Embora as acusações do governo israelense sejam graves, ainda assim não me parece um motivo para um conflito armado. E mesmo que fosse (se é que existe justificava plenamente válida para guerrear), fica cada vez mais claro que o Irã usa a Síria, já bastante debilitada por conta da grave Guerra Civíl que enfrenta, e o Líbano, que ainda se reergue da Guerra Civíl nos anos 80, como escudos para seus ataques. Afinal, geograficamente, o Irã é muito distante de Israel. Desde a Guerra contra o Iraque nos anos 80, o Irã não foi atacado militarmente por nenhum país, o que não se repete com Israel.
Uma primeira questão que eu me faço é porque um país com milhares de quilômetros de distância, com no mínimo dois países entre eles, tem bases militares noutro, que faz fronteira com Israel? Só pode ser mais do que provocação: para guerrear. E quantas bases militares Israel tem em qualquer pais do mundo? Nenhuma! Vindo de um país que diz querer varrer do mapa duas das três maiores cidades de Israel é extremamente grave este comportamento iraniano.
Iranianos respondem, mas porque escondem os rostos?
Há também que se notar a diferença nos discursos dos líderes dos dois países. De um lado, se prega a destruição de Israel, do outro impedir que o primeiro alcance armas de destruição em massa e atômicas. Mas ainda assim, num jogo baixo de discursos fracos, tanto por políticos como jornalistas, brasileiros e extrangeiros, Israel é quem leva a culpa.
No caso do último ataque, que começou com Israel destruindo bases militares iranianas na Síria, e teve como resposta ataques ao território israelense, gerou uma repercução também pela "desproporcionalidade" dos ataques, pois nenhum dos mísseis lançados a Israel atingiu o espaço aéreo israelense, e o que "prova" que o armamento iraniano é de baixo alcance, e que Israel usa de força excessiva para conte los. Oras... quem garante que isto não se trata de uma provocação e um teste por parte dos iranianos? E quem garante que a iniciativa dos ataques não seja de desviar as atenções de onde poderiam vir ataques de fato de longo e alto alcance? E mesmo que seja verdadeira a afirmação da fraqueza militar deles, se alguém colocar a mão no fogo e se queimar implica que a culpa é do fogo? Cada um usa as armas que possui, e há que se analisar os alvos. Do lado iraniano, misseis lançados contra alvos civis, e de Israel, ataques a bases militares. Portanto, um lado quer a destruição de quem estiver pela frente, não se importanto com quem, e do outro a destruição de armamentos. 
Da minha parte, acredito muito mais que iniciativas como a dos cartazes acima sejam muito mais importantes do que se pensa. É o indicativo de uma mudança vinda da iniciativa popular e que espero avançar a esfera política. Não custa sonhar e trabalhar por este sonho, não é?
De todo modo, a situação nas ruas, mesmo no Norte de Israel é calma. Como disse em redes sociais, passei as últimas noites indo a bares para acompanhar a Neta Barzilai no festival musical Eurovision de 2018. No norte, na região da Galiléia e das Colinas do Golan, embora nada de mal tenho ocorrido, apenas os abrigos anti bombas permanecem abertos, limpos e com mantimentos, por precaução. Passeios pela região podem ser mantidos sem medos ou sustos, e viagens para cá não devem ser adiados ou cancelados. Venham e passeiem! Israel é um dos países mais seguros e fara o possível para que isto se mantenha para todos aqui, cidadãos ou turistas.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Bobagens e absurdos feitos e ouvidos

Viver no exterior é dar a cara a tapa; é necessário estar disposto a errar para aprender. É impossível aprender apenas acertando. O Paraíso na Terra que muitos buscam não existe, especialmente quando lançamos altas expectativas. Por maior que seja o preparo, sempre cometeremos erros, e também ouviremos absurdos e bobagens.
Passar vergonha no exterior é quase um rito de passagem. Vejo com bons olhos.
De qualquer forma, existe um desconhecimento muito forte da vida e suas necessidades fora das fronteiras brasileiras.
Uma das primeiras bobagens que eu escutei, ainda no Brasil, era:

Você poderá ensinar Língua Portuguesa!
Não, não posso! O fato de ser falante nativo, e modestia a parte, muito bom nos conhecimentos gramaticais, não me faz uma pessoa hábil para lecionar língua alguma (só pra reforçar que também não ensino Hebraico). Não basta saber a língua, é necessário saber ensinar, e isto demanda preparo (que eu não possuo) que uma Faculdade Letras poderia ter me trazido, se fosse do meu interesse. Existe no Brasil a percepção de que para ensinar, basta saber; isto para não falar do absurdo "quem sabe, faz, quem não sabe, ensina", o que demonstra a falta de atenção que temos com a educação e nosso subdesenvolvimento socioeconômico.
Primeiramente, fora do Brasil, muito pouca gente quer aprender Língua Portuguesa, pois em geral, o fazem por razões práticas e pragmáticas, como viagem e comércio. Tirando Brasil e Portugal, poucos são os que sabem quais outros paises se fala português - e muito brasileiro estudado também não sabe.
Por favor, manifeste se aquele que aprendeu finlandês por razões unicamente culturais (embora eu conheça quem estude sueco livremente). Se não for esta, qualquer outra língua que pode ser considerada exótica ou restrita.
Por mais importante que a língua seja, aqui é mais fácil encontrar interesse em cursos de russo, alemão, francês, inglês e espanhol. Se bem que por isto mesmo eu me surpreendo quando encontro algum falante de português por estes lados.
Venda coxinhas! (uma espécie de nugget de frango)
Esta delícia da culinária brasileira, hoje ainda mais valorizada que antes, é a expressão forte da cultura informal que é a brasileira. Pobre em ingredientes, mas rica em sabor, a coxinha é muito boa e gostosa, mas isto não implica que fora do Brasil fará sucesso. Em geral, sua massa é feita com caldo de frango, leite e farinha de trigo, e no caso de Israel, deve ser adaptada pois uma das premissas da alimentação Casher é não misturar laticínios com carne e derivados, e isto inclui frango.
Da mesma forma que falafel é uma delícia e poucos lugares no Brasil o vendem, coxinha teria o mesmo destino, senão pior. Ou seja, até existe mercado, mas seria um nicho. As pessoas aqui são orgulhosas da alimentação que tem (rica em verduras e leguminosas) e estão satisfeitas com o que tem. É necessário conhecer o mercado para saber de uma possível aceitação e provavelmente adapta lo.
Venda Pão de Queijo!
O mesmo que comentei sobre a Coxinha, é uma expressão alimentar brasileira, e aqui em Israel, é até difícil encontrar os ingredientes para a massa. É uma alternativa interessante para quem não pode ingerir glutén e também para o Pessach, pois não leva farinha de trigo ou qualquer outro ingrediente fermentável proibido durante a festividade (era a minha alternativa ao pão, no Brasil). Ainda assim, o mercado para o pão de queijo ficaria restrito para brasileiros aqui, ou seja, nicho de mercado, mercado restrito.
Para ampliar mercado, é necessário conhecer o gosto local e se adaptar a ele, e provavelmente perderia parte da sua identidade, pois aqui se come muito pimentão, cebola, tomates e pepino, e achariam estranha a massa ligeiramente adocicada e borrachuda de um pão de queijo. Para meus leitores do exterior, um bom pão de queijão é crocante por fora também e deve ser comido fresco e quente.
Claro que nestas apostas, o Açaí tem feito sucesso, mas está aos poucos saindo do nicho de mercado. Da minha parte, continuará lá. Não gosto de açai, ou ao menos da forma como se vende em São Paulo (dizem que no Pará o sabor e aparência são completamente diferentes).

Das bobagens que eu fiz, posso citar algumas:
  • Comprei um protetor solar em spray, com cheiro de uva. Eu sabia que era para criança, mas só depois de compra-lo, eu senti aquele cheiro enjoativo. Sem contar que spray é uma merda, pois metade se espalha no chão ou em portas e paredes;
  • Comprei extrato de tomate no lugar de molho de tomate. Eu pretendia preparar uma Shakshuka, um prato tipicamente israeli, mas não sabia ler direito o rótulo.
  • Comprei um condicionador de cabelos e pensei que fosse hidratante. Em minha defesa, estava no lugar dos hidratantes. A consistência na pele era estranha, mas serviu ao propósito inicial! ;)
  • Comprei um sabão líquido com hidratante pensando ser hidratante apenas. O tempo aqui é muito seco, e usar hidrantante é fundamental, mas comprei um sabonete muito bom com hidratante, e não apenas um hidratante. Também serviu ao seu propósito.
  • Queria comprar carne, mas não entendi onde tinha, e não sabia como pedir no começo. Acabei comprando linguiças, porém eram extremamente picantes. Eu já comi pimenta jalapenho e não senti que fosse tão picante quanto esta linguiça. 1kg de linguiça desperdiçados.
  • Pegar o ônibus certo, no sentido errado. O Google Maps e outros aplicativos me levam ao erro. Hoje bem menos, mas quando menos espero, acontece!
  • Pegar ônibus errado e parar noutra cidade. Esta foi emocionante, pois o shabat se aproximava, e eu já estava cerca de 20km longe de casa, e se não pegasse o ônibus de volta, só voltaria a pé no calor do verão daqui. Consegui voltar em paz!
  • Sair de um supermercado, com frango congelado na sacola, e acabar no meio de um protesto de veganos contra o consumo de carne. Sorte que não viram nada, pois a sacola era preta.
  • Dar um beijo na pessoa errada. Eu avistei um amigo por trás, e lhe dei um abraço por trás e um beijo na bochecha, daí quando ele virou vi que não era quem eu pensava. Sinto vergonha até hoje!
  • Já andei no bondinho de Jerusalém sem pagar. Achei que eu tinha crédito no cartão de onibus, e fiquei tranquilo. Levou dias para eu saber o que aconteceu. Em compensação, noutra oportunidade acabei pagando duas vezes pela viagem. Ambos os casos foram sem querer. Ao menos estou com a consciência tranquila.
  • Recebi uma cantada do segurança da estação de ônibus. Ele chegou a pegar na minha mão, depois de fiscalizar minha mochila. Basicamente disse que posaria nu pra mim, depois que viu meu equipamento (fotográfico).
  • Pedir café e receber café com leite, capuccino, machiato, latte... Levei cerca de 3 meses até saber como pedir um simples café, puro, expresso, sem leite, pois aqui café preto é o Café Turco, preparado com o pó do café no copo. Se bem que até passei a gostar (de café com leite), ao menos da forma que é servido aqui, mas eu sou brasileiro e quero beber café expresso! Só pra constar, até hoje quando peço um café, me oferecem leite, e quando digo que não quero, me olham com cara de maluco. Posso ser maluco, mas sou feliz e bebo café expresso puro!

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Ano 1!


Finalmente chegou! Meu primeiro ano em Israel.
Nas primeiras horas do dia 26 de abril de 2017, eu desembarcava no aeroporto Ben Gurion, para mudar minha vida, mudar de vida, e entre altos e baixos, definitivamente mudei. Sou outra pessoa, em diversos sentidos.
As vezes paro para pensar em cada detalhe que eu passei antes, durante e após esta grande mudança na minha vida.
Algo que faz não me arrepender é o quanto eu tenho aprendido com as histórias de cada uma das pessoas que passaram pela minha vida. De trabalho, colegas no centro de absorção, de Ulpan... Todos me transformaram numa pessoa diferente. Creio ser uma pessoa melhor, mas só o tempo dirá com devida propriedade.
É um momento de balanço, de lembranças, de saudades, de reconhecimentos e méritos. Qualquer mudança de país é bastante dificil para quem quer que seja, para qualquer país que seja, e comigo e Israel não foi diferente. Alguns enfrentam de forma mais tranquila, outros de forma bastante turbulenta, mas todos cheios de emoção. E como uma pessoa extremamente passional como sou, não foi diferente. Um pouco de tudo.
As vezes paro para pensar no que deixei para trás, e ainda me questiono se foi o melhor. Não é arrependimento, mas uma consideração, um carinho. Deixar família, amigos, trabalho, e O Amor da minha vida para trás não foi uma decisão fácil ou que eu recomende. Mas eu sentia que precisava de um "tapa na cara", sair da minha zona de conforto, de experimentar o que a vida pode me oferecer, e não poderia esperar quem quer que fosse pensar a respeito, até porque a decisão foi tomada num momento de profunda solidão. Precisava seguir a diante. O tempo é o senhor das respostas e ele me proverá o amor que eu deixei, seja aqui ou aí. 12 anos de história não são 12 dias, nem 12 meses.
A saudade é algo que não passa. Apenas a controlo, e por vezes a sufoco, soco, mas ela saiu feito um furacão quando eu reencontrei minha familia em Jerusalém. Uma emoção que para poucos eu tive a coragem de descrever.
Posso dizer que sou uma pessoa de sorte. Vi o quanto meu pai trabalhava, dia e noite, para manter uma qualidade de vida razoável para mim e minhas irmãs, mas nem por isso foi fácil enfrentar a inflação dos anos 80, o sequestro das economias com Fernando Collor em 90... Ainda assim, me considero de sorte por ter tido muitas oportunidades na vida. Porém senti que eu disperdicei muitas delas, e minha vinda para cá serve também como uma resposta pessoal de quem se cansou de desperdícios, de colocar a própria vida em segundo plano para atender as demandas alheias.
Como eu costumo a dizer: Eu não virei as costas a ninguém ou a nada, apenas virei de frente a mim mesmo!
As vezes é assim que me sinto. Equilíbrio é a palavra chave.
Poucos são os que me disseram e/ou reconhecem sobre a coragem que eu tive em fazer o que fiz. Eu mesmo demorei para reconhecer. Vim para um país que eu não conhecia de forma alguma. Jamais estive aqui antes e encarei este desafio. Talvez daí venha a impressão em muitos que eu não gosto daqui. É o oposto. Apenas desenvolvi ainda mais um espírito crítico de quem quer melhorar, e quem quer melhorias. Sou feliz aqui. Se meu destino é permanecer aqui é outra questão, e não estou em busca desta resposta no momento. Vim com a cabeça aberta para uma experientação, e tenho sugado o que é possível e sinto que tenho muito mais a aprender!
Quando somos crianças, crescemos e evoluímos numa sociedade, seja ela qual for, sem uma referência anterior. Uma imigração na fase adulta não apaga este passado, esta evolução, este referencial, e daí as brigas internas constantes para entender a sua nova realidade. Acho que assim resumo o que eu vivo aqui. Um enfrentamento diário comigo, muito mais do que com outros.
Parte das críticas que recebo também são frutos da minha pseudo exposição via redes sociais e por aqui, embora eu sempre ressalte que eu sou consciente do que exponho, e Ninguém tem capacidade de me julgar, pois Ninguém sabe nem 10% do que passo.
Muitas decepções passei, bem como muitos alentos e carinho tenho encontrado, e boa parte a distância. Amizades que pareciam tão amenas, se provaram muito fortes e me dão mais gana em continuar, em avançar, em crescer, em melhorar, em me conhecer de fato. Retomei amizades duradouras que estavam adormecidas.
Lembro de uma senhora que me pediu uma ajuda, e ao notar meu sotaque, perguntou se eu era francês (a maioria acha que vim de lá), e ao falar Brasil, passou a falar num português muito bom, e me acalmou a respeito de muitas coisas, especialmente a valorizar as pessoas mais calmas e generosas no meio da ferocidade. E lá estava ela, e nem o nome dela eu sei, me abriu os olhos para outros aspectos. Só me recordo que ela morou por cerca de 7 anos no Brasil, 5 anos no Canadá e 2 em Portugal, e adorou o Brasil e espera voltar em breve, o que não se repete com os outros países citados.
E a cada paquera surgida a distância, um alento a meu coração. Em perceber que não sou invisível. Em perceber que embora nada tenha acontecido, a minha imaginação voou longe, as vezes para a França, Canadá, Brasil, Alemanha e Oceano Pacífico e a sensação de solidão era diminuída. Obrigado a todos, que de modo direto, e também os indiretos, demonstraram seus sentimentos por mim e pude retribuir de uma forma terna.
Ainda me sinto muito solitário aqui. E com isto também tenho aprendido a me conhecer, e me respeitar, e principalmente, a colocar em prática o que minhas terapeutas, as Dras Gabriela Russo e Rosangela Nimea diziam, de ter uma inteligência emocional, de cuidar primeiramente de si próprio - de equilibrar força e resiliência.
Enfrentei "sozinho" de Hepatite a crises de ansiedade, de despedidas a enterro de amigos, passando a colegas envolvidos com álcool a drogas. E na medida do possível tenho as encarado e superado. Não me deixei abater.
Aprendi a não tomar para mim o que acontece a minha volta. Não me tornei uma pessoa desprovida de coração, mas entendi que há fatos que ocorrem aquém da minha vontade, e envolver me com elas me tirará do meu caminho, do meu prumo e não trará necessariamente a devida ajuda. Até porque eu me afetei mesmo quando pediram para que não, como quando minha melhor amiga resolveu deixar Israel e seguir seu rumo noutro lugar. Mas me recompus rápido e hoje tenho aquele sentimento gostoso da saudade.
Acompanhei a distância a despedida de uma tia, o nascimento de filhos de amigos, promoção no trabalho... É ter ciência que não estou presente, mas faço parte das lembranças deles. É receber ligações de vídeo no meio da madrugada (daqui) cheia de piadas com a minha cara amassada de sono, ligações de video com fofocas generalizadas e compartilhar das alegrias e tristezas alheias, receber broncas via mensagens de voz, quase ser ludibriado por um psicopata, é ter um presente de aniversário entregue em meu nome. Receber a tradução gratuita do meu currículo sem que eu tivesse pedido, e ajuda com a minha saúde num triângulo Brasil-Holanda-Israel.
Eu poderia nomear cada um aqui, mas sinto que eu teria que abrir outro blog só agradecer a cada um da maneira que eu gostaria.
Resolvi, portanto, colocar uma foto daqueles que se destacaram, de algum modo, no topo desta publicação. Omiti outros em respeito a sua própria imagem, que por motivos que somente a eles cabe, preferem ficar de fora de holofotes. Bem como a minha família, da qual eu jamais pensei que seria tão compreensiva e participativa neste processo todo. Eu tenho plena consciência do susto que eu trouxe quando, resumidamente, eu contei: "daqui uns 20 dias estou me mudando. E não será de casa, e sim de país!". Fiz assim pois eu tinha que lidar com as minhas emoções primeiramente e depois com as dos demais.
Portanto, o sentimento de saudade hoje se mistura com o de agradecimento forte e sincero, tanto a aqueles que aqui estiveram comigo, a turismo, a negócios como neste sonho que é viver fora do seu país amado, do cerco de pessoas queridas, e enfrentar um país que pode ter seus defeitos (mas têm virtudes também), e ainda assim quase que integralmente lhe abraça e lhe deseja Mazal Tov (parabéns) e Behatzlachá (sucesso). Que venha mais!
Para terminar, fica a música que atualmente reflete um pouco das minhas sensações aqui. A tradução e a transliteração podem ser lidas aqui.


quarta-feira, 18 de abril de 2018

Ver para crer. Visitar para sentir.

Israel não é um país fácil de entender.
Explicações externas tentam, mas em geral em vão, explicar os desafios da vida cotidiana e política no único país judaico do mundo.
E minha observação não se baseia no fato de eu ser judeu e morar aqui. Seja pelo lado positivista ou negativista, as observações sobre Israel são exageradas, infelizmente, muito mais por quem a critica. Nomes com a capacidade de análise histórica e que mantenham o respeito são poucos.
Lembro de ter lido uma das últimas notas oficiais do PSOL, onde um texto lotado de ódio, quase babando sangue, vem querer desqualificar ações militares de defesa de Israel. Se as observações se baseassem em abusos, seria de se levar em consideração, mas quando parte do princípio de línguajar chulo e cretino, com termos como banho de sangue e estado genocida, ultrapassa se claramente o limite entre critica a atuação e passa a se questionar a soberania nacional, o que é algo extremamente perigoso. A primeira é plenamente justificavel, desde que embasada, mas infelizmente, o partido não tem capacidade disto, e por isto mesmo, desde a sua fundação, corre por fora em qualquer cargo que dispute. São poucos os personagens ligados ao partido que tenham um viés neutro, e quem defenda Israel beira a neutralidade.
Não entrarei no mérito do conflito ocorrido ao Sul, pois pouco acompenhei o caso. Tanto que um jornalista brasileiro tentou obter informações comigo e creio ter sido muito vago. Abordo apenas do que sei! A questão é que os últimos conflitos, em 2017 e até a presente data em 2018, a segurança nacional saiu inabalada.
Esta semana eu tive a ilustríssima presença dos meus pais e irmã, comemorando o Pessach e matando as saudades deste quase um ano de distância. E chegaram pouco tempo após os conflitos na fronteira com Gaza. Logo nas primeiras horas, minha mãe, em sua primeira vez na Terra Santa, observou o quando as pessoas andam despreocupadas pelas ruas, e na quantidade de bancos pelas ruas, e como as pessoas a ocupam, transformando as em locais de socialização.
Pessoas próximas a ela, incluindo familiares, a aconselharam a não vir, acham que andamos nas ruas desviando de bombas e tiros, sendo que em momento algum ela sentiu qualquer medo ou inseguraça enquanto esteve aqui. é engraçado saber que até familiariares deram esta recomendação, sendo que o filho dela, eu no caso, está aqui e nunca fez qualquer menção a insegurança. Se ela estaria em risco ao vir, eu já estou há tempos.
Só faltaram minha outra irmã e meu sobrinho. No Yad Vashem.
É compreensível a preocupação, pois é algo fora da realidade brasileira. No Brasil a preocupação é em não andar com muito dinheiro no bolso, pois se pode ser assaltado, ou "ostentar" um celular novo, joiais, relógio - é "pedir para ser assaltado", e ainda dirão que a culpa é sua, da vítima. É ver notícias de chacinas, se indignar num dia, e nem pensar mais nisto no outro. Mas o problema é a guerra (que não existe) entre judeus e palestinos pelo controle em Israel.
Aqui se retira dinheiro no meio da rua, no meio da feira, sem diversos dispositivos de segurança comuns no Brasil.
Umas semanas antes da vinda deles, um amigo dizia que a relação que os país dele tinham com Israel também era de total preocupação, mas que após a visita, passaram a enxergar um país incompreendido, com seus vicios e desafios, problemas e soluções, e sairam muito mais tranquilos "em deixar" seu filho aqui. No fundo, embora eu ainda não tenha conversado muito com eles a respeito, creio que o mesmo ocorreu. E embora a saudade seja grande, e os convites para uma volta foram mantidos, viram o que eu lhes relatava, e mais, a respeito das possibilidades de crescimento profissional e pessoal, que foram muitos dos atrativos para a minha vinda.
Embora eu também me sinta triste em não haver qualquer chance de negociações de paz entre Israel e Palestinos, por culpa de ambos os lados (não vou aqui medir o mais culpado ou o mais inocente), a vida que se leva aqui é muito mais leve que no Brasil, mesmo nos aureos tempos de crescimento de 7% do PIB. Mesmo amigos vindos de paises desenvolvidos, como EUA, Bélgica ou Canadá, relatam a violência tem crescido, incluindo a terrorista, enquanto em Israel ela diminui a passos largos.
Independentemente da sua posição político-partidária, crença religiosa, fica o convite a visitar o país e ver com seus próprios olhos onde está o tal apartheid tão comumente dito, ou a insegurança nas ruas, o que o conflito com palestinos tem produzido: De um lado um país com uma economia punjante, do outro, se questione até que ponto Israel é responsável pelas mazelas daquela população. Eu ainda não tenho respostas para esta questão de difícil, e por isto compartilho aqui algo que também busco saber. Não estou, entretanto, dizendo que não exista qualquer destrate aos palestinos, mas a noção de apartheid é de segregação institucional de uma nação a seus prórios cidadãos, como o que ocorreu na África do Sul e Estados Unidos. Como ainda não tive qualquer possibilidade de visitar a Cisjordania, prefiro não emitir qualquer opinião a respeito.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Tel Aviv, uma das cidades mais caras do mundo

Sairam recentemente diversas reportagens, e diversas línguas, a respeito das cidades mais caras do mundo para se viver. Chama a atenção que a única cidade no Oriente Médio entre as 10 mais caras é Tel Aviv, coração cultural e financeiro de Israel. É a 9° colocada!
Lembro ano passado, durante minha primeira visita a cidade, quando encontrei um amigo coordenador da viagem Marcha para Vida, e uma amiga que não via há uns 10 anos e que mora na cidade. Fiquei bastante impressionado com o custo de coisas simples, como uma garrafa d'água. Na ocasião, eu comprei uma, de 1litro para beber no caminho de volta, durante o forte verão daqui, e me custou ₪11, sendo que na cidade de Beer Sheva, onde morava, a mesma garrafa custava ₪6.
Em 2011, houveram diversos protestos no país reclamando justamente do alto custo de vida no país, mas de lá pra cá, o que se diz é que as coisas não melhoraram.
Um ponto precisa ser observado: a desvalorização do dólar frente a diversas moedas, incluindo o Shekel Novo, tem influenciado no aumento do custo de vida. A pesquisa se baseado na conversão em dólar dos produtos listados.

Na minha opinião, o maior custo é o de moradia. Dividindo aparamento com algum colega de quarto, o aluguel na cidade parte dos ₪ 2300, não incluindo os custo de manutenção predial (parecido com condomínio no Brasil), água, eletricidade e a Arnona (imposto municial, equivalente ao IPTU).
Não a toa muita gente tem optado por morar em cidades próximas, e eventualmente distantes, e viajam todos os dias para trabalhar. Há casos em que pessoas tem optado por morar em cidades a mais de 80km de distância e vão de carro, ônibus ou trem para o trabalho, todos os dias. Num pais que se tem pressa demais, e paciência de menos, morar num local maior e mais barato não é algo facilmente aceitável - e nem deveria ser.
Seria este um preço a se pagar por causa do seu próprio sucesso?
Para encerar, um vídeo do Nas Daily, fazendo uma demonstração do custo de vida em Israel  embora tenha se concentrado em Tel Aviv, frente ao antigo salário mínimo daqui, que na ocasião do vídeo eram ₪5000 (₪27/hora), e hoje são ₪5300 (₪30/hora).

quarta-feira, 21 de março de 2018

Dados de imigração

Há cerca de um mês foi divulgado números a respeito da imigração e de quantos sairam e não retornaram a Israel.
Os dados em questão mostram quantos imigrantes legais chegaram a Israel no período de 1º/01/1989 até 31/12/2012, ou seja, por 23 anos.
É um total de 1.330.340 imigrantes novos, sendo que destes, 144.628, ou 10,9% sairam de Israel e não retornaram. São considerados apenas os casos de não retornarem após 2 anós, quando para questões oficiais, é considerado não residente (embora a cidadania permaneça).
O que mais me chamou a atenção é o caso do Brasil. A saída de judeus do país rumo a Israel cresceu nos ultimos 3 anos, mas ficou abaixo do projetado para 2017 - se dizia que poderia passar as 900, e não chegou de 700, ficando uma numeração um pouco mais elevada se comparada com 2016. De todo modo, no período ilustrado, de 23 anos, 5.617 brasileiros imigraram para Israel, sendo que 1.426 sairam e não retornaram (taxa de 25,4%). Ou seja, a quantidade de brasileiros que chegou aqui em 23 anos não se compara com o de russos que chegam num único ano.
Um ponto que serve também para brasileiros compreenderem que o português tem pouca presença aqui é o fato de que neste período todo a quantidade de imigrantes não chega a 25% da imigração anual dos russos e ucranianos.
Outro ponto que me chama atenção é que os judeus do Brasil possuem uma das maiores taxas de evasão do país, que tem uma média de 10,9%, e de brasileiros em 25,4%. Não é possível apresentar os motivos, pois não é necessário ao cidadão, seja ele nativo ou imigrado, prestar informações a respeito.
O que deve ser feito é informar ao governo da sua saída, pois num caso de retorno, seja a turismo ou residência, não haja cobrança de pagamento de seguridade social atrasada, por exemplo. É algo parecido ao que no Brasil se faz junto a Receita Federal, a chamada Declaração de Saída Definitiva, que deve ser feita por cidadãos que pretendem permanecer mais de 12 meses no exterior, independentemente do motivo, e também serve para evitar taxação sobre ganhos de capital e salário no exterior, além de facilitar uma possível explicação ao Fisco sobre ganhos no exterior num caso de retorno a condição de residente. Se houve o desejo em retornar, em todo caso, entre em contato com o Ministério das Relações Exteriores e siga suas instruções para oficializar lo.

2 anos longe de muitos, mais perto de mim.

Já pararam para pensar que a vida de uma pessoa é como um livro, escrito em tempo real? Felizmente, ou não, jamais teremos acesso a totali...